Ser Escritor

Baudelaire reclamava que a imprensa do seu tempo só se preocupava com os artistas que faziam sucesso – não muito diferente de hoje, quando as empresas querem que jovens já venham de bagagem pronta e currículo farto. Pois bem, na época, a imprensa que se multiplicou até o hoje, no que chamamos de “mídia”, tinha uma nítida preferência pelo que suas próprias páginas, repetitivamente, elogiavam. Provável que fosse bastante cotado a questão do respeito e dos contatos certos para se sobressair. Porém, atualmente, a mídia se preocupa apenas com o que ela mesma condena e defende, e vem sendo assim, não é à toa que muito escritor e artista acaba por ser marginalizado, e só após sua morte reconhecem seu valor. Por exemplo, cerca de sessenta anos atrás poemas vulgares eram terminantemente proibidos, e não parava aí, os poemas que não seguissem a métrica e a rima, eram taxados das piores maneiras. Se prepare para ler sobre “O Lado Bom da Vida” e “Por Lugares Incríveis” e curiosidades!

 

Ainda que o mundo da escrita, seja um universo interessante e que é gostoso de se mencionar por aqui, por exemplo, saindo um pouco desse tema; Bach em meados de 1700 não fazia a mínima ideia do sucesso que suas composições viriam a ter, muito menos se imaginaria na classificação de “compositor barroco”; termo que inclusive não era atual na época. E ainda menos que o futuro elegeria ele como um dos maiores criadores de música ocidental do Ocidente; muito menos Van Gogh teria ideia de quantos de seus quadros seriam vendidos a preços exorbitantes, e do marco que faria no ramo da arte.

E isso também vale para vários outros escritores como: Allan Poe, Franz Kafka, Emily Dickinson, Anne Frank e até H.P. Lovecraft. Vale até uma menção a este último. Sua biografia conta com várias passagens angustiantes, quase como se ele fosse de uma raça diferente e ninguém pudesse entendê-lo. Fica óbvio que isso não se restringe a esses escritores apenas, tem uma lista infindável daqueles que ficaram e ficam no escuro…

é mais ou menos isso…

Afinal de contas, todo artista quer suas obras reconhecidas, esse é o real intuito. E é perfeitamente visível que não é só no campo da escrita que isso acontece.

Vale a pena mencionar, que por exemplo, em Por Lugares Incríveis o protagonista começa a se identificar e falar sobre alguns artistas, que sofreram depressão, como Virginia Woolf e alguns outros, citam suas obras e seus percalços, como se eles servissem de pontapé para que as estórias fluíssem; já em O Lado Bom da Vida, o personagem te presenteia com spoilers sobre os finais dos livros que lê, porquê para ele um bom livro pode ter tudo, mas necessita de um final de feliz –  e por um momento, parece que ele vai reviver a sociedade dos escritores mortos só para condená-los, por fins tão tristes…

A exemplo, um dia desse ao começar um capítulo do meu novo livro, falo sobre Rachmaninoff e algumas curiosidades enquanto a música dele toca ao fundo, serve perfeitamente como um bom pano de fundo e agrega aquele tempero final de que a história está perto da realidade, de alguma forma. Outro exemplo similar, é uma amiga do site Bookworm, que escreve de uma forma tão generosa e detalhada que até os retratos nas paredes parecem salpicar suas histórias na história protagonista, recomendo muito que leiam algo da Fernanda.

.: Diamantes, sabe fabricar?

Bom, a ideia é bem simples: adicione grafite, ou algum parente distante do diamante em altas pilhas de pedras, sedimentos ou escombros que literalmente pesem horrores. Próxima etapa, deixe a receita descansar. Depois de um bom tempo de molho, adicione temperaturas crescentes até que o estado da matéria e cada mísero átomo possam “evolui” num passe de mágica. E vóilà, diamantes.

Às vezes quando você olha a nível microscópico na vida de alguns desses autores é possível perceber que grande parte dos “frutos”, as obras, eram reflexo dos seus cotidianos. Quase como se eles tivessem passado pelo mesmo processo do grafite, contudo para o mundo e as pessoas a sua volta, muitas vezes, não fazia diferença nenhuma ou muito mínima.

Exemplo disso era a vida de Bukowski. Apesar de ter passado parte de sua vida imerso em bebedeiras, trabalhos braçais, regados a mulheres, festas e música clássica veio a ser reconhecido quando tinha por volta dos 50 anos. E para finalmente, adentrar em uma editora, passou muito tempo enviando seus originais até finalmente ser reconhecido e então ganhar o título de gênio contemporâneo da literatura; bônus (não tão conhecido) é que por vários anos Bukowski foi conhecido como o Rei das Revistas pequenas e jornais, pois, eram os únicos que publicavam seu nome, visto que havia uma certa banalização com os poemas. Até que eventualmente, sua poesia, mesmo nesses veículos menosprezados, na época, chamou atenção de um colecionador de livros, que se não ó se interessou em conhecê-lo, como investir dinheiro para que ele pudesse se estabelecer como escritor de prosa, daí surgiu Post Office, Mulheres e demais.

Nessas horas quando você vê tudo isso em perspectiva não é injusto conceder ou chamar qualquer pessoa de escritor? Isto é, escritor antes de tudo não pela trajetória de vida exclusivamente, e sim, pela a marca da sua alma em cada página escrita. Esse trabalho mais denso, onde é possível sentir os maiores temores e as melhores epifanias que circundam a mente de cada autor.

Faço questão de mostrar os fatos dessa maneira porque livros, ou melhor literatura de uma maneira mais geral, se trata mais de conteúdo, é sobre a arte de cada coisa. E isso tudo engloba esses discursos elitistas de que a literatura é algo além da capacidade, digna de pedestal ou coisa de gênero. Pra exemplo de nota (retórica): escrita é um dom ou algo que se aperfeiçoa? Ou o limiar é tênue entre ambos?

“Existe uma livraria na Austrália, na qual os livros são envolvidos em um envelope, e o resumo é escrito na frente, para que ninguém possa julgar um livro pela capa”. || Ah, se tivessem inventado isso bem antes… ou aplicassem mais rs

.: Os Desacreditados, Mal amados, Desprezados

Samuel Beckett com 29 anos, desacreditado, pressionado pela mãe por estar desempregado e ainda duvidoso da carreira de escritor. Em um dia como um eureca veloz, começa a escrever um livro onde o personagem principal reflete o próprio autor. Uma espécie de desespero frenético porque não tem a alienação do louco (forma de inveja), muito menos o que é necessário para as demandas sociais, e começa exatamente de maneira precária: Murphy amarrado nu em uma cadeira de balanço por vontade própria na tentativa de abstenção e resolução da dualidade corpo & espírito.

Stendhal tendo publicado alguns livros, por volta dos 30, no entanto não tinha nenhum retorno nem do público nem da crítica, se encontrava pobre e com inúmeras oportunidades negadas para novas obras. Até que uma noite ele resolveu se suicidar, coisa que executaria pela manhã, e para seu (in) fortúnio recebeu a visita de um amigo xeretando seus papeis. Stendhal por sua vez disse que estava trabalhando em algo sim, mas era algo imprestável. Assim que o amigo tocou os olhos na leitura ficou fascinado, e insistiu que ele devia terminar a qualquer custo. O escritor desistiu do suicídio voltou para seu manuscrito e veio a nomeâ-lo como O Vermelho e o Negro… o que por sua vez, apenas marcaria ele como cânone ocidental!

Por mais que o trabalho não esteja vingando, a escrita custe a sair ou até mesmo algo que você considere de valor, vale mencionar que o resultado é intrínseco mesmo que seja alcançando hoje, amanhã ou daqui a dois anos. Como diz Virginia Woolf que o diga: só cabe ao futuro julgar a literatura e não ao próprio escritor. E eu sei, isso soa um pouco triste de início, nunca saber se suas expectativas vão ou não se consolidar, mas tenha em mente que isso é liberdade criativa. Aquele tempero aos livros, dos quais os pálidos escritores atuais ultimamente carecem demais.

É como se desprender de quaisquer julgamentos da sua obra, se vai ser agradável para o público, das pressões de agentes literários e até mesmo de coisas mais pessoais como perfeccionismo ou o seu orgulho. Esse é o caminho do estado da arte.

Isso vale principalmente se você é um leitor ávido e escreve por hobby, aqueles poemas criados no colegial, ou até as fanfics apaixonadas em nome daquele personagem de livro/filme. No final das contas são esses escritores que ganham os livros no final de cada século. Mas, e então, está um pouco mais inspirado (a) para sua jornada de escritor (a)?

P.S. Espero que alguns exemplos dessa lista sirvam para vocês! E contribuam para suas narrativas. Tem mais curiosidade, comenta aí!

P.S.2. Vale perguntar: achando os bastidores muita depressão? Estaria disposto a trabalhar na escrita de forma alucinante, deixar cada “pegada” da sua alma nas páginas? Ou será que o caminho muitas vezes é a leitura aliada a escrita, assim como a gramática impecável?

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