Por que ler os contos de fadas?

Basta dar uma olhada nos livros bestsellers ou participar de algumas conversas literárias para notar que a grande maioria dos leitores tem certo receio de ler contos de fadas, para muitos isso ainda é associado a histórias destinadas apenas ao público infantil.

A idéia do artigo é justamente mostrar que os contos infantis escondem muito mais que apenas histórias “bobas”. Vale ressaltar que falaremos dos contos originais (Irmãos Grimm, Charles Perrault, Hans Christian Andersen, entre outros), não falaremos das adaptações da Disney.

 

Cinderela

Só o conto mais popular do mundo…

Impossível começar a falar de contos de fadas sem citar Cinderela, sem dúvidas o conto mais difundido no mundo inteiro.

A história todo mundo já conhece, a princesa que se vê obrigada a fazer trabalhos domésticos para sua madrasta e só encontra salvação com a ajuda da fada madrinha. Mas quando digo que é a história mais famosa do mundo não estou me baseando apenas no que eu acho, foi provado que o estilo narrativo de Cinderela se repete por todo o mundo.

Numa variante Sérvia quem ajuda não é a fada madrinha e sim a mãe de Cinderela que se transforma em uma vaca.

A versão filipina é ainda mais estranha, um caranguejo ajuda Cinderela, sim, um caranguejo.

Daria uma lista enorme citar tudo (existem 345 versões dá história), basta saber que essa popularidade de Cinderela se deve ao apelo universal da menina pobre sem esperanças que de uma hora para outra muda de vida.

Pele de asno

Sem dúvidas a versão mais estranha de Cinderela. Em pele de asno a princesa precisa fugir do castelo para evitar o pai incestuoso que deseja se casar com ela. Pode parecer chocante histórias infantis assim, mas se parar para analisar veremos que os contos remetem de histórias bem mais antigas que tinham o incesto como tema principal (desde Édipo rei até a Bíblia)

Vestígios históricos em Cinderela

Já pararam para pensar porque tem tantas madrastas más nos contos de fadas? Não só em Cinderela mas em milhares de outros contos a madrasta sempre é a grande vilã. Isso provavelmente se deve ao fato de que na antiguidade e idade média a taxa de mortalidade de mulheres que dão a luz era bem mais alta do que é hoje, por isso tantas madrastas nos contos. Mas tá, elas eram “más”? Não, imagine que você é uma madrasta e descobre que só tem um príncipe querendo se casar, você daria prioridade para a filha do seu marido ou para suas próprias filhas? E se só tivesse um pedaço de bife, para quem você daria? Pois é, a idade média não era nenhum “mar de rosas”, era questão de sobrevivência. Quem sabe agora você olha diferente para as madrastas.

 

Chapeuzinho Vermelho

“Chapeuzinho Vermelho foi meu primeiro amor. Eu sentia que, se pudesse me casar com Chapeuzinho Vermelho, seria feliz para sempre” . Charles Dickens

Chapeuzinho Vermelho, uma das histórias mais famosas, tem duas versões importantes. A versão dos Irmãos Grimm que é a mais conhecida, com a chapeuzinho sendo devorada pelo lobo após dar mais atenção do que era devido e sendo resgatada pelo caçador que mata o lobo. Felizes para sempre. Mas existe outra versão mais antiga (de 1697) escrita por Charles Perrault, prepare-se para ter sua infância destruída, na versão de Perrault Chapeuzinho é devorada pelo lobo, e fim. Nada de final feliz para essa versão, nada de caçador.

alerta para as jovens!

Pode parecer cruel o final que Perrault dá para Chapeuzinho, mas após analisar a época e a intenção é possível compreender.

190, rondas noturnas, internet, TV ou qualquer outra tecnologia ou órgão protetor não existia na idade média, então como fazer para que as garotas na época não conversasse com estranhos, com “lobos”. O final cruel do conto tem justamente como objetivo assustar e alertar as crianças, o final feliz talvez não assustasse o suficiente. Lobo nesse contexto pode ter o sentido literal (na idade média se acreditava que alguns homens eram capazes de se transformar em lobos), ou o sentido figurado, que pode ser bem explicado pela moral que Perrault colocou no conto.

 

Reprodução: Pinterest

Irmãos Grimm

“Se você quer que seus filhos sejam inteligentes, leia contos de fadas para eles. Se você quer que eles sejam muito inteligentes, leia mais contos de fadas” Albert Einstein

Após ler o texto abaixo você provavelmente nunca mais dirá que quer uma vida de contos de fadas, ou que quer um príncipe encantado.

Antes de serem adaptados para crianças nos séculos XVIII e XIX os contos eram bem adultos, contendo temas como: estupro, violência, incesto, canibalismo, e por aí vai…

Só quando os contos foram redirecionados para o público infantil (a última a fazer adaptações foi a Disney) que esses temas deixaram de fazer parte dá vida dá Rapunzel, Cinderela, João e Maria e Branca de Neve

Para ilustrar bem o que quero dizer vou mostrar um conto pouco conhecido, mas que acredite se quiser, está na coletânea dos irmãos Grimm. Leia por sua conta e risco:

“Era uma vez um menino que matou o próprio irmão numa brincadeira com facas no quintal. A mãe deles estava dando banho no bebê no andar de cima e quando ouviu a gritaria dos filhos lá fora, desceu as escadas correndo para ver o que havia acontecido. Em meio ao sangue e ao nervosismo tentou tirar a faca das mãos do garoto, mas acabou o matando. Quando voltou em prantos para dentro de casa, percebeu que havia esquecido o bebê na banheira e ele tinha morrido afogado. Ela, então, não viu outra saída a não ser enforcar-se. O pai dessa família chegou do trabalho, viu aquela cena horrível, não conseguiu superar tamanha tragédia e acabou morrendo de desgosto.”

O nome desse conto é “Quando crianças brincam de açougueiro”, e ele é apenas um exemplo.

Numa época sem internet ou TV os contos infantis entretiam as pessoas, em rodas após o trabalho ou em reuniões familiares alguém sempre contava essas histórias que para nós estão bem longes de ser contos de fadas. Desde o princípio o homem gosta de histórias picantes, com violência, sangue e tragédia. Basta dar uma procurada na internet e ver qual notícia recebe mais clicks.

As mulheres eram as maiores contadoras de histórias, pois trabalhavam em casa, ou em outros casos nem trabalhavam. Provavelmente esse é um dos motivos do porque histórias com protagonistas femininas são mais conhecidas do que as histórias com protagonistas masculinos.

Casamentos arranjados

Outro aspecto social que refletiam nos contos eram os casamentos arranjados. Contos como “O Barba Azul”, “A Bela e a Fera” ou “a princesa e o sapo” são bons exemplos disso.

Durante a idade média o casamento era visto mais como uma forma de ascensão social do que uma união amorosa, casar com um marido rico poderia ser o fator decisório entre viver na miséria ou viver bem.

Isso claro está presente em diversos contos, principalmente nos que se encaixam na categoria “cônjuges animalescos”

Em A Bela e a Fera, escrito por Madame de Villeneuve e depois reescrito pela Madame de Beaumont o foco pode ser interpretado como um conselho para as jovens, a grande maioria muitas vezes tinham que se casar com homens décadas mais velhos que elas, a “Fera” era um alerta e um consolo para elas não darem tanta importância a aparência física do futuro marido

A Bela e a Fera

Outro conto que mostra isso é “O Barba Azul”. Após desobedecer a ordem do marido (no caso, o Barba Azul) a jovem esposa descobre que ele tem um quarto para guardar os corpos das antigas esposas que ele matou. Por sorte ela é salva e tem um final feliz.

Mas quantas jovens na idade média casaram com um “Barba Azul”? O conto tem como moral advertir as jovens esposas para que elas não deixem a curiosidade falar mais alto (sim, a culpa era sempre dá mulher, nunca do Serial Killer)

Indicações do livros

Se esse artigo despertou sua vontade de ler os contos de fadas originais então aproveite essas dicas de livros, que li e recomendo muito.

Editora Zahar

Essa coletânea de contos, além de ser fácil de encontrar, reúne obras de diversos autores então ler esse livro já será uma boa porta de entrada para ter uma visão mais ampla do gênero.

Link na imagem, clique e voilà!

Editora Abril

Não, não é um livro de terror. Ele saiu na banca.(mas é possível achar na internet) e tem uma visão mais teórica, possui vários ensaios de interpretação e estudo dos contos, além a leitura é simples e flui muito bem.

Enfim, minha intenção era apenas dar uma pincelada no conteúdo dos contos que geralmente são ignorados pelos leitores comuns. Conteúdo para pesquisa é o que mais tem, vai desde revistas, livros teóricos até os próprios contos originais. Espero que de alguma forma eu tenha convencido você a se debruçar e procurar olhar os contos com olhos adultos. Milhares de especialistas se dedicam em estudar os contos, eles são importantes em diversas áreas, desde literatura, psicologia, história, cultural, antropológico, entre outros, por isso devem ser lidos. Em breve farei uma segunda parte, abordando outras questões que envolvam contos a história infantis.

 

 

 

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