Nos Bastidores Da Ideia – Se Aprofundando no seu Enredo – Parte 1

Esses dias tive algumas ideias inusitadas, e claro, precisava compartilhar aqui.  Têm acontecido de forma tão constante, que decidi criar uma oficina criativa, dividida em seções para melhor abordar cada tópico. Se você está aqui se prepare para ler sobre “Meia Noite em Paris“, uma pitada do seriado Genius e quantas claras de ovos vão em um vazio existencial!

Primeiramente, vou propor um teste…

Digamos, que você está empacado (a) na sua narrativa, então, quero que após essa instrução, feche os olhos: mentalize seu personagem por alguns instantes, pense em algumas palavras que supostamente servem como definições para ele ou ela, sua vida, seus problemas e memórias. Se ajudar, coloque alguma trilha sonora pra facilitar.

Mantenha essas primeiras imagens da vida dele(a) em mente. No segundo passo, você vai levar a outro patamar as palavras que foram escolhidas, digo, tente formar correlações entre a vida e o passado do personagem, para que essas palavras te forneçam cenários, detalhes e mais informações úteis para a criação da sua história. Se você escolheu “pragmático”, que contexto isso se encaixa, que diálogos e discussões havia um teor pragmático? Ou quem sabe, “excêntrico”, “transcendental”, “alvorecer”, “utopia”?  Pois bem, pegou o espírito, não?

trecho do filme Meia Noite em Paris

O enredo do filme é sobre um escritor que tem vergonha mortal de mostrar seus trabalhos, acaba de sair do ramo de roteirista, no qual é bem conceituado e prestigiado. De vez em quando, nas noites de suspense, em que tudo pode acontecer, até inclusive esbarrar com Hemingway, Fitzgerald e outros muchachos da época, desde beber absinto no Les Deuyx Magots, u jantar um choucroute garnie com Picasso no La Rotonde.  Imagine as conversas que eles teriam! (Tem umas frases e uns diálogos muito bons, vale a pena, só cuidado com o final)

O personagem se mostra totalmente aterrorizado diante de qualquer ideia de mostrar, quer seja para sua noiva, ou seu sogra e sogra extremamente críticos. Mas, em alguns momentos, quando ele se permite um momento de fuga, seu escapismo quase pode ser visto nos olhos, as ideias passando, no entanto, sua postura é quase sempre passiva, então, a narrativa segue e segue com a tortuosa trilha da falta de coragem.  Até que eventualmente, um Hemingway bem mecânico começa a soltar suas falas para argumentar que se ele estiver escrevendo não importa que tema ou enredo fosse, desde que houvesse alma e vigor na narrativa, valeria a pena.

Nostalgia é negação – negação do doloroso presente… o nome para negação é a era do pensamento de ouro – a noção errônea de que diferentes épocas de tempo são melhores do que as alguém está – é uma falha na imaginação romântica daquelas pessoas que acham dificuldade em lidar com o presente.

Enfim, a ideia útil e a correlação creio que possa ser a ideia de que é possível sempre extrair muitas ideias de séculos passados, e nós idealizamos tanto aqueles gênios ou escritores de x período que acabamos por esquecer de algumas coisas de grande valia; as pequenas coisas e os detalhes muitas vezes são toda a estrutura. E àquela dica final para fazer você correr e verificar a trama: o personagem é dos típicos conflitos internos, no qual o telespectador nunca sabe se o tema que ele escreve em seu livro se trata sobre sua própria vida, ou uma mera ficção, por assim dizer.

qual ideia você tem assistido ? | reprodução: pinterest

Bem, isso tem acontecido comigo ultimamente, um lampejo seguido de uma avalanche de ideias me assalta, corro até o notebook e digito o máximo sobre todas ideias, se tudo correr bem e ainda houver ideias adicionais, apenas escrevo o esboço delas, para que depois volte com gás renovado e finalize. Parece até de outro mundo, o que é um dos pontos que acho interessante sobre a escrita, certas ocasiões engatilham certos enredos que normalmente eu não teria parado para pensar sobre eles, soa estranho para mim, e pelo menos, aparenta que sou um dos poucos escritores que as ideias surgem assim, como se pedissem para serem escritas, enquanto na verdade, vejo muitos autores se utilizando de brainstorms e roteiros para poder criar suas histórias, o que sempre me soou como um processo muito mecânico para algo que tem veia e coração demais – entretanto isso, é conversa para outro artigo…

A ideia de escrever estruturas completas a partir de palavras me veio quando eu estava assistindo um seriado (Genius, se vocês querem saber), e a ideia ficou cravada de uma forma, que consegui definir vários aspectos do protagonista de uma maneira muito precisa; algo como “boêmio”, foi suficiente para criar a imagem de um apostador que esteve no topo da vida, mas, infelizmente chegou a se tornar um mendigo e veio parar em um canto remoto de alguma cidade que nunca dorme, mora em uma catedral abandonada que geme milagres a noite. Era isso, consegui escrever seis páginas em um piscar de olhos, e depois toda a inspiração para a ideia se foi.

E se pararmos para perceber há inúmeras palavras na nossa língua que não são tão privilegiadas em conversas cotidianas, elas simplesmente são parcialmente esquecidas, e de tempos em tempos vamos revendo e reabsorvendo-as de maneiras diferentes.

Minha ideia aqui, não é prover uma receita de bolo para que você possa driblar melhor o seu bloqueio, mas, primeiramente, eu recomendaria criar um bloco de palavras que te atraem e que são menos usadas ou incomuns, e sempre que precisar de mais “recheio” para as suas histórias, essas palavras possam fornecer senão enredos completos, cenas ou personagens bem delineados.

A mesma dica, pode funcionar para temas poéticos e afins, afinal, se as estrelas lembram o céu e a noite, elas trazem o conceito das estrelas cadentes, do brilho lunar, da quietude das ruas na madrugada sombria; e a ideia contínua perpetuamente, e por mais que soe clichê a início, é interessante encarar apenas como ideias, e se você já possui o miolo de alguma inspiração solta, basta embaralhar as associações criadas e perceber perspectivas que você não imaginou antes.

Outra ideia que me ocorreu esses dias foi através de uma pergunta aberta, da qual eu simplesmente não sabia ou nunca havia parado para pensar; “você existe para que…?”. Isso me tomou uns bons minutos, repescar algumas memórias, visitar antigas ideias e concepções, e para aplicar ao personagem, iria muito mais além, afinal, dificilmente a ideia vem inteiramente pronta, você não sabe a cor dos olhos do personagem, ou se ele ou ela deixa as unhas crescerem, que time torce e que propósitos fundamentais eles carregam.

e quando bate aquele vazio existencial depois do parágrafo… ? | reprodução: pinterest

Ao fazer perguntas fechadas, dificilmente você terá respostas que auto desenvolvam a narrativa. Inclusive, acho uma abordagem interessante para os diálogos, porque perguntas abertas não podem ser simplesmente respondidas com sim ou não. Quanto mais irrestrita a pergunta for, melhor será, pois, fará com que não só seu personagem tenha que desenvolver o diálogo, tanto quanto fará captar melhor a atenção dos leitores.

Pessoalmente, eu diria que seria um dos momentos em que eu pararia com o livro na minha cara e faria todo um tour fantástico pelos túneis da memória.

Acredito que deu pra sentir bem o gostinho da ideia, e se você quer começar a se questionar através de seus personagens, sugiro que suas frases comecem com “o que, qual, porquê, como, quão e quem”.

Ficou alguma dúvida? Compartilhe sua experiência criativa também! 🙂

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